A Intervenção da Educação Física nos Transtornos do Desenvolvimento

Por: Vinícius Figueiredo de Oliveira

Psicólogo, mestrando pelo programa de pós-graduação em Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, e pesquisador pelo Laboratório de Psicologia Médica e Neuropsicologia (LAPSIMN - UFMG).

Este texto resume os achados apresentados em:

Ribeiro, S. R. O., Fernandes, L. A., Souza, T. A., Godoy, V. P., & Lage, G. M. (2020). Perspectivas de Intervenção Motora da Educação Física nos Transtornos do Desenvolvimento. In. Lage, G. M., & Ribeiro, S. R. O. (Orgs.). Comportamento Motor nos Transtornos do Desenvolvimento (158-184). Belo Horizonte: Editora Ampla.


Os transtornos do desenvolvimento estão associados a alterações neurobiológicas que impactam as funções cognitivas e motoras. Tendo em vista os comprometimentos característicos dessas condições, a prática de atividade física, quando adequadamente realizada, se torna uma forma de atuar em funções geralmente rebaixadas. Para que tal intervenção seja realizada, é fundamental entender a natureza do movimento no nível fisiológico e neurocognitivo.

Inicialmente, devemos compreender que o movimento se divide em seus aspectos energéticos e informacionais. Os aspectos energéticos dizem respeito a fatores como força e velocidade, isto é, estão relacionados à atividade músculo-esquelética e à aptidão física. Os aspectos informacionais, por outro lado, envolvem principalmente fatores perceptuais e cognitivos e estão relacionados à melhora do controle motor e da qualidade do movimento. Déficits motores podem surgir de prejuízos em qualquer um desses aspectos, tornando-se necessário direcionar a intervenção de acordo com as particularidades de cada indivíduo. Para compreendermos melhor os processos cognitivos intrinsecamente associados à prática de habilidades motoras, vamos conceituá-los para, posteriormente, entendermos como o profissional pode direcionar intervenções.

Uma das habilidades mais importantes e mais presentes na atividade física e no dia a dia é a atenção, que se trata de um conjunto de processos que permite a seleção e manipulação de informações no ambiente. Na intervenção motora de crianças com problemas de atenção, é importante que o professor avalie o nível de dificuldade atencional imposto ao aluno e minimize os elementos distratores no ambiente.

A cognição numérica envolve habilidades de assimilação de quantidades e grandezas. No contexto da educação física, é aplicada, por exemplo, para mensurar distâncias ou estimar quantidades de oponentes e aliados ao seu redor.

O processamento visuoespacial é necessário para a percepção e a organização visual do ambiente, e pode ser estimulado por meio de pistas visuais na execução das tarefas.

A velocidade de processamento se refere à eficiência com a qual o indivíduo realiza uma tarefa cognitiva em um intervalo de tempo.

O processamento de recompensas diz respeito à capacidade de avaliar os benefícios que diferentes ações trarão no curto, médio e longo prazo. Essa capacidade pode ser trabalhada por meio de recursos como mapas de acompanhamento de comportamento (recompensando os bons comportamentos), distribuição de pequenos pontos ao longo da execução da tarefa e fornecimento de recompensas ao final da atividade.

As funções executivas são um conjunto de habilidades que permite o estabelecimento de metas, bem como a elaboração, o monitoramento e a atualização de planos para atingir o objetivo. Alguns exemplos são:

- O controle inibitório: Recrutado para inibir reações impulsivas ou abrir mão de ações imediatas.

- A flexibilidade cognitiva: Permite a adaptação do comportamento diante de novas exigências ou regras no ambiente.

- A memória de trabalho: Trata-se da capacidade de reter e manipular informações temporariamente.

- O planejamento: Capacidade de traçar ações para atingir um objetivo.

As funções executivas são trabalhadas por meio de práticas que demandam alta exigência informacional, como jogos coletivos.

A Educação Física pode utilizar diversas atividades como forma de intervenção nos processos cognitivos supracitados. Daremos alguns exemplos que serão seguidos pelas habilidades requeridas.

Uma possível tarefa é a realização de circuitos nos quais habilidades motoras distintas são recrutadas. O professor pode organizar o espaço com pistas visuais ao longo do trajeto, exigindo que o aluno execute a ação pedida no estímulo visual. Essa abordagem trabalha a atenção, memória operacional, velocidade de processamento, planejamento, entre outras capacidades cognitivas.

Outra atividade é a brincadeira "Vivo/Morto", na qual os alunos devem se manter atentos à fala do professor e inibir reações automáticas para obter êxito. Essa brincadeira estimula a atenção, flexibilidade cognitiva, memória operacional, processamento visuoespacial, velocidade de processamento, entre outros aspectos.

Além disso, a utilização de exercícios físicos informacionais é uma estratégia eficaz. Por exemplo, durante um treinamento de condução de bolas e chutes a gol, o professor pode solicitar que os alunos mudem a forma de chutar quando estiverem próximos à área do gol, utilizando diferentes partes do pé. Essa abordagem trabalha a atenção, flexibilidade cognitiva, memória operacional, processamento visuoespacial, velocidade de processamento e planejamento.

Em suma, é imprescindível compreender as características do movimento e unir esse conhecimento às necessidades dos alunos, principalmente daqueles com transtornos do desenvolvimento. As aulas de Educação Física devem ser aliadas a outras intervenções individuais, visando promover um desenvolvimento adequado das habilidades motoras e cognitivas. Dessa forma, o profissional de Educação Física desempenha um papel importante na intervenção desses transtornos, auxiliando na promoção do bem-estar e na melhoria da qualidade de vida dos indivíduos afetados.

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REFERÊNCIAS

Ribeiro, S. R. O., Fernandes, L. A., Souza, T. A., Godoy, V. P., & Lage, G. M. (2020). Perspectivas de Intervenção Motora da Educação Física nos Transtornos do Desenvolvimento. In. Lage, G. M., & Ribeiro, S. R. O. (Orgs.). Comportamento Motor nos Transtornos do Desenvolvimento (158-184). Belo Horizonte: Editora Ampla.