Dia Internacional da Educação: 5 Mitos sobre a Educação e Aprendizagem

Em sua declaração sobre o Dia Internacional da Educação, Audrey Azoulay, diretora-geral da UNESCO, afirmou: "A educação é a força mais poderosa em nossas mãos para garantir melhorias significativas na saúde, estimular o crescimento econômico, e liberar o potencial e a inovação de que precisamos para construir sociedades mais resilientes e sustentáveis". [Tradução nossa].¹ A fala de Azoulay resume a principal mensagem que o dia 24 de janeiro passou a celebrar a partir de 2019: a educação tem um papel fundamental para o desenvolvimento social.
Destaca-se, por sua vez, que a aprendizagem efetiva depende de vários fatores, tais como sociais, econômicos, pessoais, escolares, etc. Com os avanços nas pesquisas psicológicas e pedagógicas, tem-se descoberto quais práticas favorecem o processo educacional, porém, paralelamente a tais achados, são difundidas noções equivocadas e mitos que perpetuam o imaginário de professores e alunos, o que, como consequência, retarda o avanço acadêmico.
Com vistas a contribuir com o enriquecimento deste dia e a combater algumas das noções equivocadas, nós selecionamos alguns dos principais e mais frequentes mitos para rebatê-los no texto de hoje.
Estilos de Aprendizagem²: Trata-se da ideia de que cada aluno aprenderia melhor ao utilizar um sentido específico (seja o tato, a visão ou a audição), o que resultaria em alunos cinestésicos, visuais e auditivos. Apesar de ter ganhado espaço em alguns materiais e aulas sob o pretexto de que “cada um aprende de uma forma”, as pesquisas na área apontam que o meio pelo qual nós absorvemos o conteúdo não define nossa retenção do material, visto que nós aprendemos a partir do entendimento do significado da matéria. Isto é, nós não guardamos a forma do conteúdo, e, sim, o que ele quer dizer. Portanto, ainda que seja muito popular para alguns pensadores, a hipótese não se baseia em evidências sólidas. Existem outros estilos de aprendizagem propagados por aí (como convergentes e divergentes, e concretos e abstratos), contudo, também carecem de achados confiáveis.
A Pirâmide da Aprendizagem³: São grandes as chances de você já ter visto um esquema em formato de pirâmide no qual, em seu topo, está escrito “10 % quando lemos”, “20% quando ouvimos”, “30% quando vemos”, etc. Conhecida como “A Pirâmide da Aprendizagem”, ela indica que cada um destes métodos levam a uma retenção diferente do material de estudo. Porém, esta proposta apresenta vários problemas. O primeiro deles é que não há uma referência primária, ou seja, uma pesquisa que tenha encontrado estes valores. Além disso, a pirâmide subestima métodos de estudos importantes (como a leitura) e superestima outras (como discussões sobre o assunto). Outra limitação é a ausência de uma separação clara entre os métodos propostos (qual a diferença entre “ler” e “ver”, sendo que para ler você precisa ver? Qual a diferença exata entre “discutir” e “ensinar”?). Apesar de difundida e amigável aos olhos, trata-se de mais um mito sobre aprendizagem.
Os outros mitos a seguir foram refutados em Christodoulou (2014).
“A ênfase no ensino dos fatos impede a compreensão do conhecimento”, isto é, o ensino de informações descontextualizadas não favorece a aprendizagem. Contudo, a aquisição de informações, como a tabuada e fatos isolados, permite a utilização do conhecimento de mundo para sustentar uma nova aprendizagem ou resolver um novo problema. Sem que haja fatos armazenados, o aluno não automatiza processos e é incapaz de usar recursos cognitivos para desafios complexos.
“A aprendizagem por instrução é passiva”. Parte do pressuposto de que a recepção do conhecimento passado pelo professor é uma ação que limita a plena absorção do conteúdo e pressupõe que o aluno é secundário na sala de aula. Porém, não há aprendizagem sem que o aluno se envolva diretamente nela. Tal envolvimento é cognitivo, e não é necessário que haja uma resposta motora para que o aluno aprenda uma informação semântica. Como já comentado anteriormente, nós lembramos daquilo do qual compreendemos o significado.
“A memorização tornou-se obsoleta”. Entende que a presença da informação no ambiente e em mídias digitais exime a necessidade de aprendê-la. Porém, como já referido antes, um novo conhecimento se sustenta em um conhecimento prévio, e limitar o acesso a uma informação à sua respectiva consulta no material impede que o aluno trabalhe cognitivamente com aprendizados mais complexos.
Por fim, ressalta-se que a boa educação depende não apenas de propagar boas práticas, mas também denunciar aquelas que são ineficazes. Para aprofundar neste assunto, três excelentes livros podem ser encontrados em nosso site: Pedagogia do Fracasso (Simplício & Haase), Pedagogia do Sucesso (Haase, Simplício & Benedetti), e Neurociência e Educação (Cosenza & Guerra).
Um ótimo Dia Internacional da Educação a todos!
Por: Vinícius Figueiredo de Oliveira
REFERÊNCIAS
¹https://www.unesco.org/en/articles/first-ever-international-ay-education-24-january-2019
²Willingham, D. T. (2009). Por Que os Alunos não Gostam da Escola?. Penso Editora.
³Jackson, J. (2016). Myths of active learning: Edgar Dale and the cone of experience. Journal of the Human Anatomy and Physiology Society, 20(2), 51-53.
Christodoulou, D. (2014). Seven myths about education. Routledge.
> Especialização em Neurociências e Educação