Por que não devemos supor Prejuízos Neuroanatômicos ao realizar Avaliação Neuropsicológica?

Por: Vinícius Figueiredo de Oliveira

Psicólogo, mestrando pelo programa de pós-graduação em Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, e pesquisador pelo Laboratório de Psicologia Médica e Neuropsicologia (LAPSIMN - UFMG).


Muitos erros podem ocorrer durante uma avaliação neuropsicológica ou durante a escrita do laudo neuropsicológico. Alguns deles são fruto do desentendimento do verdadeiro objetivo da avaliação, bem como de suas potencialidades e limitações. Um desses equívocos que devem ser evitados é supor que desempenho baixo em testes e perdas de funcionalidade são, necessariamente, decorrentes de lesões ou disfunções cerebrais.

De onde nasce esse tipo de equívoco? A neuropsicologia é uma área interdisciplinar, que busca investigar as funções cognitivas e o comportamento, de forma a relacioná-los com o funcionamento normal ou deficitário do sistema nervoso. Como linha de estudo, a neuropsicologia surgiu a partir do atendimento de pacientes com lesões cerebrais e da análise dos respectivos déficits cognitivos. Tendo em vista os objetivos e a história da neuropsicologia, uma das ideias centrais é a de que o funcionamento anormal do cérebro leva a alterações cognitivas e comportamentais. Contudo, alguns clínicos extrapolam esse raciocínio, acreditando que uma função cognitiva modificada ou um comportamento atípico resultam, inevitavelmente, de alguma anormalidade no cérebro.

Tal conclusão não se sustenta, uma vez que muitas podem ser as razões pelas quais o funcionamento do indivíduo esteja abaixo da média esperada. E o mesmo cuidado vale ao falarmos do resultado de um teste, pois o desempenho baixo de um paciente em uma tarefa pode ter diversos motivos, tais como: desenvolvimento atípico, uma função cognitiva que esteja modificada mas seja diferente da principal avaliada (por exemplo, ir mal em um teste de leitura por dificuldade na atenção), fatores ambientais, desmotivação com o processo avaliativo, e até mesmo erros de aplicação ou ambiente clínico desfavorável, para citar só alguns.

Todas as ressalvas levantadas até o momento não excluem a importância de exames complementares ou do levantamento de histórico de lesões cerebrais. Por exemplo, é possível que exames de neuroimagem tenham encontrado danos em áreas específicas do cérebro, cujos déficits nas funções associadas foram revelados em uma avaliação neuropsicológica posterior, após encaminhamento do médico que identificou as lesões. Da mesma maneira, é possível que o paciente, de fato, tenha sofrido um acidente ou AVC, e, após avaliação neuropsicológica, os prejuízos decorrentes sejam melhor esclarecidos, conforme comparação com o funcionamento do paciente antes das injúrias. Note que, nesses exemplos relatados, a avaliação é um exame complementar que busca identificar prejuízos funcionais decorrentes de lesões que já sabe-se que estão presentes. Isto é, não foi ela que revelou a presença das alterações cerebrais.

Portanto, durante a avaliação neuropsicológica, caso haja uma real suspeita de alterações cerebrais ainda não descritas, o neuropsicólogo deve encaminhar o paciente para o médico especializado, de tal forma que servirá de exame complementar à investigação em andamento. Desta maneira, ao ser cauteloso em suas conclusões, o profissional que realiza a avaliação neuropsicológica evita inferências precipitadas, interpretações equivocadas e buscas desnecessárias de novos exames ou tratamentos.

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BIBLIOGRAFIA

Malloy-Diniz, L. F., Mattos, P., Abreu, N., & Fuentes, D. (2015). Neuropsicologia: aplicações clínicas. Artmed Editora.